Encontros

Encontros

Obras de arte digital e experiência imersiva
19.01.2026

Encontros reúne obras de quatro artistas cujas práticas atravessam diferentes
linguagens, tecnologias e modos de perceção.
Apresentam-se instalações e videoartes de Mateus Verde, Miguel Soares, Pedro Alves
da Veiga e Rui Travasso, em conjunto com um ambiente imersivo na Sala das Colunas,
onde é apresentada uma playlist criada pelo músico Gonçalo Penas, juntamente com
imagem gerada por Inteligência Artificial.
Em comum, os seus trabalhos exploram o ponto de encontro entre imagem, código,
som, corpo e espaço, revelando como sistemas digitais moldam — e são moldados por
— novas experiências contemporâneas.
A exposição propõe um percurso em que múltiplas narrativas coexistem e se cruzam,
criando zonas de contato entre o visível e o invisível, o programado e o imprevisível, o
humano e o maquínico.
Cada obra atua como um campo de experimentação, convidando o público a observar,
interagir e refletir sobre os fluxos de dados, afetos e presenças que atravessam o
ambiente digital.
Em diálogo com as restantes obras, na Sala Imersiva, duas obras ampliam a experiência
sensorial da exposição. Nessa sala, som, imagem e espaço fundem-se, deslocando a
posição do espectador de observador para participante ativo. A imersão não é apenas
visual, mas corporal, instaurando um tempo expandido onde memória, território e
tecnologia convergem.
Apresentamos ainda uma obra de Miguel Soares, gentilmente cedida pelo MAAT,
artista já bem conhecido e presente em variadas coleções públicas e privadas.
Mais do que reunir trabalhos, Encontros propõe um espaço de partilha — entre
artistas, obras e públicos — onde a arte digital se manifesta como linguagem viva, em
constante transformação.

autor: Mateus Verde
título da obra: Uma Canção à Lua
ano: 2024

Conceito:
Esta peça é uma canção aberta e inacabada, a ser explorada e tocada por quem a
visitar. Toma a forma de uma preparação cerimonial, em que o artista convida o
público a fazer parte de uma prática de observação metafórica e veneração da Lua.
Esta prática desenvolve-se através do uso do som enquanto método de aproximação
ao transcendental.
Começando com um instrumento construído a partir de um tronco recolhido ainda
incandescente após uma queimada no interior algarvio, nesta madeira foram
instaladas lamelas metálicas feitas com material recolhido de sucata encontrada no
campo. O som é reproduzido através de uma chapa metálica circular que mimetiza a
Lua cheia, ativada por um transdutor que a faz vibrar em sincronia com o som,
tornando o metal o seu meio de ressonância. Sobre o instrumento e o metal são
projetadas as sombras dos galhos das árvores que habitam o sítio onde o material foi
recolhido, como se o espectador observasse a Lua através destes ramos.
Encorajando a contemplação do mistério que reside na realidade fundamental de
todas as coisas, o espectador é convidado a sentir a sua interpretação espiritual e
emocional na sua interação direta com a instalação.
Trabalho desenvolvido no âmbito do projeto Museu Zer0 – Magalhães com tutoria de
Luís Fernandes.

Autor: Miguel Soares
Título da obra: H20
Ano: 2003/2004
Animação realizada durante uma residência artística no Location One, Nova Iorque,
2003/2004. H2O é uma espécie de visão cronológica da poluição humana dos oceanos
do ponto de vista dos seus habitantes, os peixes. Começando numa época quase pré-
histórica vamonos apercebendo dos vários acontecimentos que têm lugar na
“superfície”, desde a evolução do design de cadeiras ou automóveis até às grandes
guerras mundiais ou ao aparecimento de “gadgets” eletrónicos. Estarão os peixes a
adaptar-se a estes objetos “estranhos”?


autor: Pedro Alves da Veiga
título da obra: G.O.D.L.E.S.S. | Gaza Ominous Dataset: Lawless Evil Systematic
Slaughter
ano: 2024

Conceito:
G.O.D.L.E.S.S. | Gaza Ominous Dataset: Lawless Evil Systematic Slaughter é uma
instalação de média-arte digital generativa e não interativa, que deriva tecnicamente
da sua antecessora, G.O.D. | Generative Ominous Dataset, embora divirja
acentuadamente na sua orientação conceptual e estética. Enquanto G.O.D. explorava a
metáfora de “os dados enquanto Deus”, através de uma radiância hipnótica construída
a partir de imagens algoritmicamente distorcidas das piores situações e crises do
Antropoceno, G.O.D.L.E.S.S. adota uma postura mais urgente e confrontacional,
refletindo sobre as atrocidades contemporâneas com um olhar firme e inabalável.
Se G.O.D. se centrava nas implicações metafísicas e epistemológicas de Big Data, da
inteligência artificial e da omnisciência divina – canalizando a iconografia religiosa para
uma reflexão crítica sobre as tecnologias generativas – G.O.D.L.E.S.S. dispensa essa
distância simbólica. Em vez disso, responde diretamente à evidência visual do
genocídio palestiniano em curso na Faixa de Gaza, formando um dataset de imagens
enraizado no sofrimento captado em tempo real e no horror geopolítico. Esta nova
obra abandona a abstração estetizada do divino a favor de uma poética brutal e
imediata da perda, da destruição e da injustiça.
Apesar de utilizar algoritmos generativos e técnicas de transformação visual
semelhantes a G.O.D., todos eles programados pelo autor, G.O.D.L.E.S.S. retém
deliberadamente vestígios mais reconhecíveis do material de origem. Esta rutura com
a anulação da origem em G.O.D. constitui uma viragem crítica: em G.O.D.L.E.S.S., a
evidência permanece percetível, os corpos legíveis, as mensagens flagrantes. As
explosões de cor da instalação – vermelhos, laranjas, amarelos – imitam a paleta das
explosões, enquanto os cinzentos dos escombros e os tons pálidos dos cadáveres
evocam um horror pictórico. Se G.O.D. oferecia um “êxtase estético” abstrato e
meditativo, G.O.D.L.E.S.S. contrapõe-lhe um realismo espectral, desafiando o
espectador a confrontar as implicações éticas do ato de ver.
Em vez do “olho que tudo vê” de G.O.D., o lugar focal é ocupado por um olho cego –
que olha para a dispersão da morte, iterações mecanizadas da guerra, apagamentos
sistemáticos e cumplicidade, sem (querer) ver, verdadeiramente. Apesar de silenciosa
como a obra anterior, esta instalação “fala” através do seu campo visual esmagador:

um arquivo mecanizado da atrocidade, esteticamente reconfigurado, mas resistente
ao embelezamento.
Em última instância, G.O.D.L.E.S.S. constitui uma inversão sombria de G.O.D.,
mantendo a crítica ao consumo acrítico de datasets roubados pelas novas ferramentas
de IA generativa, mas deslocando-se do simbólico para o explícito, do desprendimento
sublime para o trauma incorporado. Se G.O.D. era uma teologia especulativa para a era
dos algoritmos, G.O.D.L.E.S.S. é o seu exorcismo – um confronto urgente e ético com o
real.

autor: Rui Travasso
título da obra: In.S.Pitch
ano: 2024

Conceito:
In.S.Pitch – In. de entrada; Pitch de altura dos sons; Speech de discurso ou fala – é um
artefacto que funciona mediante a interação sonora com o visitante, o qual dispõe de
um microfone para comunicar com o artefacto. Os sons produzidos na comunicação
são transformados em valores midi, e de forma inerente, induzirão uma escolha dentre
sete músicas oriundas do Algarve, Alentejo e Andaluzia. As músicas são executadas
individualmente ou sobrepostas, funcionando como sete camadas sonoras que se vão
complementando. Sete são as músicas, sete componentes do artefacto, sete são as
notas musicais – dó, ré, mi, fá, sol, lá e si – criando um simbolismo neste âmbito. O
artefacto apresenta também uma componente visual fotográfica, amplificando a
experiência do visitante através de imagens da origem geográfica das músicas. Em
suma, In.S.Pitch transporta o visitante para as raízes da música tradicional de três
regiões vizinhas, tendo como ponto de partida a interação sonora.

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Museu Zer0

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